Autor: juliapinheiroandrade

Neuroeducação: isso faz sentido?

Neurociência e educação são áreas cada vez mais próximas. A assim chamada neurociência educacional ou neuroeducação se fundamenta na ideia de construir uma ponte entre os estudos científicos sobre o funcionamento do cérebro humano in vivo e os processos de desenvolvimento e aprendizagem. Inúmeros estudos “brain-based” vêm sendo realizados para mensurar o aprendizado de competências tais como cálculo e numeracia; alfabetização e letramento; competências sócio-emocionais e competências em basic skills; avaliação, inteligência fluida, inteligência cristalizada para ficar nas mais óbvias para a educação. Há uma profusão de estudos envolvendo comparações entre as diferentes faixas etárias e temas como: sono e memória, emoção e controle executivo, atenção,  acurácia visual e games, letramento e neuroplasticidade e bilinguismo, musica e neuroestimulaçãoo global, meditação e neuroplasticidade, treino socioemocional e acrescimento na numeracia e no letramento;

Estamos trabalhando em um paper científico de revisão sistemática da assim chamada neuroeducação. Paralelamente, em outras fontes, ensaiamos, abaixo, um brevíssimo quadro preliminar de autores, temas, e proposições correlacionáveis com as práticas educacionais:

Autor Tema Proposição  
Tokuhama-Espinosa (2010) Review of Mind, Brain and education research: what is well-established/ probably so/intelligent speculation/neuromyth Well-established:

·        Cada cérebro é único, como um rosto;

·        Os cérebros não são iguais em habilidades para resolver problemas

·        Os cérebros são modificados pela experiência;

·        Os cérebros conectam novas informações nas antigas;

·        O cérebro é altamente plástico;

Michael I. Posner (2010) ·        Quais as aplicações pedagógicas das neuroimagens?

·        Como relacionar a tipologia de atenção às aprendizagens?

·        Leitura e aritimética

·        Autoregulação das aprendizagens e metacognição

Judy Willis

(2010)

Estratégias didáticas de aprendizagem significativa e alta motivação baseadas em neurociência 1.      Improuving RAS: reticular activating system:

o   Modulação do tom de voz do professor

o   Cuidados e alternâncias nas dinâmicas de comunicação: fontes de letra, imagens, enigmas, charadas, músicas

o   Alternância do arranjo espacial na classe

2.      Ciclo da dopamina (NAcc) e os mecanismos de recompensa que fixam memórias de longa duração (moduladas pela emoção)

3.      Incorporação do erro como parte do aprendizado

4.      Avaliação frequente

5.      Estratégias de contextualização e recuperação da memória – por padrões e correlações;

6.      Comunidades de aprendizagem

o

Multimodalidade de linguagens de linguagens favorece o aprendizado? (Polemica com PELLEGRINO et al 2011); ·        Holistic and Visual thinking como estratégia de entrada em um tema; depois desenvolver detalhes e sequencias;

·        A arte como conteúdo e estratégia para o desenvolvimento da criatividade (pensamento holístico, não PBL);

O papel da emoção no aprendizado 7.      A vinculação emocionalmente positiva como fator crucial para a memória das aprendizagens: “o estado de fluxo”

o   Stress como causa de baixa retenção de memórias

8.      A vinculação emocional a saberes não científicos

Roteiro de escolas inovadoras nos Estados Unidos

Onde estão as escolas mais inovadoras? Por onde começar a pesquisá-las? Quais critérios eleger para analisar seu grau de inovação?

Essas são as questões por detrás da iniciativa do blog Getting Smart de desenvolver um midset, um modo de pensar inovador em educação. Para isso, listaram 100 escolas inovadoras nos Estados Unidos e destacaram  um aspecto-chave de sua inovação: investigação, desenvolvimento do caráter, sala de aula invertida, design thinking como base do currículo e muitos outros critérios. A listagem subdividiu as escolas pelas faixas de ensino norte-americanas: elementary school  (Ensino Fundamental I, do 1o ao 5o anos), middle school (Ensino Fundamental II, do 6o ao 8o anos), High School (Ensino Médio, com 4 anos). Confira a listagem completa em: http://gettingsmart.com/2014/11/100-schools-worth-visiting/

 

(FOTO: FLICKR/ CREATIVE COMMONS - TSEVIS)

Neurociência na educação?

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.britac.ac.uk/images/fellows/5888.jpg&imgrefurl=http://www.britac.ac.uk/fellowship/elections/index.cfm?member%3D6580&h=256&w=197&tbnid=oiexfsds_gkrPM:&zoom=1&tbnh=160&tbnw=123&usg=__AZGoOqY8nHhyx3LZb52P5VE7VhE=&docid=Z--5E_dS1jT-mM&itg=1&ved=0CH4Qyjc&ei=1Jc1VMHbEY3IgwSx3ICIBQ

Neurociência e educação: as bases da aprendizagem

Vale à pena conferir a palestra do neurocientista Stanislas Dehaene no Collège de France sobre as bases da aprendizagem segundo a pesquisa neurocientífica atual aplicada à psicologia cognitiva. Segundo ele, o cérebro de um bebê recém nascido já é altamente estruturado e especializado para funções cognitivas e emocionais dada pela herança genética de primatas de nossa espécie. Dai, por exemplo, decorre a sua primeira grande teoria: a reciclagem neuronal. Segundo Dehaene, reciclamos neurônios originalmente formados (pela evolução) ao reconhecimento oral e visual (por exemplo comunicação com o grupo e identificação de presas e predadores, como ocorre entre os primatas) para desenvolver uma função da cultura: a leitura e a escrita. Dehaene mostra que compreender quais são os conceitos e algorítimos intuitivos do cérebro humano e como são estabelecidas as redes neuronais no processo de aquisição formal do pensamento e da linguagem  pode ajudar professores a terem mais consciência e profundidade em sua ação educativa. Seus exemplos se aplicam inclusive a casos de alunos com dislexia ou discalculia. Dehaene afirma que todos os bebês já nascem com um conceito de espaço, de nome e mesmo de percepção estatística. (Re)conhecer estes conceitos intuitivos e trazê-los à consciência do estudante por meio de um ensino significativo, em que o erro é parte integrante do processo de aprender, é a missão do professor bem formado. Na palestra Dehaene explora quatro fatores ou pilares essenciais para qualquer aprendizagem formal:

1. Atenção: a) função de alerta; b) orientação (espacial ou metal); c)controle executivo;

2. Engajamento ativo no processo de aprender (o que inclui autoavaliação)

3. Retorno da aprendizagem (retornos positivos pelos quais o professor estimula o próprio ato de aprender)

4. Consolidação da aprendizagem: a) processos no sono; b) processos de automatização (do consciente ao inconsciente)

Confira!

obs: se alguém não souber o francês e pedir, eu resumo toda a palestra! 😉

Acesso a palestra via youtube:

Alfabetização no Brasil não alfabetiza

você conhece as posições do neurocientista José Morais a respeito da aquisição da competência leitora? Entrevista para O Globo, de 14/09/2014

Doutor em desenvolvimento da cognição e psicolinguística, o português José Morais defende o envolvimento da neurociência na alfabetização para reformar os pensamentos pedagógicos. Em agosto ele virá ao Brasil para VII Seminário Internacional, promovido pelo Instituto Alfa e Beto (IAB), em Belo Horizonte. Na mesma cidade, ele também participará do II Forum Mundial de Dislexia.

Que contribuição a psicologia cognitiva pode dar à pedagogia?

A psicologia cognitiva examina os processos mentais em uma grande variedade de situações, incluindo as de aprendizagem. A pedagogia será, portanto, mais bem fundamentada se levar em conta o que a psicologia cognitiva nos mostra sobre a percepção, a atenção, a memória, a imaginação, o pensamento, e sobre o desenvolvimento de todas estas capacidades. E até sobre as relações entre a cognição e a motivação, por um lado; e as emoções e os afetos, por outro lado.

E no caso da alfabetização?

A psicologia cognitiva nos mostra, entre muitas outras descobertas, que a leitura de textos não é uma elaboração contínua de hipóteses sobre as palavras do texto, mas sim, um processo automático, não intencional e muito complexo de processamento das letras e das unidades da estrutura fono-ortográfica de cada palavra, que conduz ao seu reconhecimento ou à sua identificação.

Como é a relação entre a atividade cerebral e a leitura?

A leitura visual não se faz nos olhos, mas no cérebro — a retina, embriologicamente, faz parte do cérebro. Não há leitura sem uma atividade cerebral que mobiliza vastas regiões do cérebro e, em primeiro lugar, a chamada Área da Forma Visual das Palavras. Ela se situa no hemisfério esquerdo do cérebro e não é ativada por palavras escritas nos indivíduos analfabetos. Nos alfabetizados ela é ativada fortemente, e o seu grau de ativação aumenta à medida que a criança aprende a ler. No leitor competente, a leitura de um texto baseia-se no reconhecimento ou na identificação das palavras escritas sucessivamente. À medida que elas são processadas, essa informação é enviada para outras áreas cerebrais que se ocupam do processamento da língua, independentemente da modalidade perceptiva (em particular, o processamento semântico e sintáxico), assim como da codificação da informação na memória de trabalho verbal e do acesso à memória a longo prazo. Tudo isso permite a compreensão do texto e a sua interpretação e avaliação.

Considerando essas atividades cerebrais, existe uma idade ideal para alfabetização? Qual seria?

Hoje sabemos que a plasticidade cerebral é muito maior e mais longeva do que imaginávamos há 30 anos, variando segundo o tipo de aquisição. Cognitivamente, as crianças podem aprender a ler aos 5, 6, 7 anos, sem que a diferença de idade se reflita mais tarde em diferenças de habilidade de leitura. Há crianças que aprendem a ler antes dos 5 anos, mas generalizar isso não parece desejável, porque para o desenvolvimento global da criança, é indispensável que ela passe muito tempo brincando e se relacionando com os outros.

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Mas é correto fixar uma idade padrão para alfabetizar?

É uma obrigação social e moral que o Estado fixe a idade de início da alfabetização. Se as crianças da elite aprendem aos 5 ou 6 anos na família ou em colégios particulares, não está certo que as do povo só sejam alfabetizadas (capazes de ler com compreensão e de escrever) aos 8 anos. Está se desviando a atenção daquilo que realmente é importante: a política certa, política de reprodução de privilégios ou política pública realmente democrática.

Suas pesquisas ressaltam a importância dos sons atrelados à palavra escrita e clamam para que a alfabetização tenha mais exercícios fonéticos. Como eles devem ser?

De modo geral, devem ser atividades que conduzam a criança a compreender o princípio alfabético, isto é, o que as letras (mais exatamente os grafemas, o que inclui dígrafos como “ch”) representam. Não sons da fala, mas sim as unidades elementares que os linguistas chamam de fonemas e das quais a criança não toma consciência espontaneamente pelo simples fato de ser exposta a material escrito.

Qual a importância do ditado e da leitura em voz alta nesse contexto?

O ditado e a leitura em voz alta só intervém, obviamente, quando o aluno já entendeu o principio alfabético e já adquiriu o conhecimento de um número suficiente de relações fonema-grafema e grafema-fonema. Ambos são muito importantes para assegurar o sucesso da alfabetização. Através do ditado, aluno e professor podem ir avaliando o conhecimento da ortografia, e, através da leitura em voz alta, eles não só vão avaliando a precisão da leitura como o aluno vai ganhando fluência, rapidez na leitura, que é essencial para a automatização do reconhecimento das palavras escritas e para deixar os seus recursos cognitivos (de atenção, de associação, de memória) para a compreensão do texto.

Os exercícios fonéticos podem ser aplicados ainda na pré-escola?

Na pré-escola é importante verificar a qualidade fonética da fala da criança e também solicitar dela a tomada de consciência de relações como a da rima (mão – pão) ou de partilha de sílaba (va- em vaca e vala) e de fonema (fazer com que a criança se aperceba de que há algo comum no início de porta, pato, pilha, pele, punho). Tudo isso são passos sucessivos que preparam a criança para a sua alfabetização.

É possível aprender a ler de forma natural como aprender a falar, como prega a teoria construtivista?

Se fosse possível aprender a ler de forma natural, como se aprende a falar, não haveria falantes analfabetos, não haveria necessidade de escolas para alfabetizar, não haveria toda esta bagunça a propósito da alfabetização. Claro que se baseia em algo de natural: a linguagem, uma capacidade que resulta da nossa evolução biológica enquanto espécie. Os sistemas de escrita, inventados por civilizações antigas para representar a linguagem (e também, inicialmente, objetos e ideias), são realizações culturais que vão muito além da nossa evolução biológica e que, para serem reproduzidas de geração em geração, exigem intencionalidade, instituições, dispositivos, ensino.

O método de alfabetização proposto pelo Ministério da Educação do Brasil hoje se enquadra em qual teoria? Como o senhor avalia a alfabetização brasileira?

Infelizmente, baseia-se na crença construtivista — chamo de crença porque contraria o conhecimento científico atual. No Pisa (programa internacional de avaliação de estudantes, na sigla em inglês), não houve variação significativa entre a primeira versão, de 2000, e a última, de 2012. O Brasil está muito abaixo da média dos países e quase 80 pontos abaixo de Portugal, que tem a mesma língua, o mesmo código ortográfico, e as diferenças de dialeto deveriam até ser mais favoráveis à alfabetização no Brasil. Só 1 em mil adolescentes brasileiros lê no nível mais alto de desempenho estabelecido pelo Pisa. A taxa de analfabetismo continua demasiado alta e, sobretudo, quase metade da população não lê de maneira competente. O Ministério da Educação não pode continuar a manter uma proposta de alfabetização que não alfabetiza.

Read more: http://oglobo.globo.com/sociedade/alfabetizacao-no-brasil-nao-alfabetiza-13321682#ixzz3DgFfGzXK

Brilho nos olhos

A maior missão da escola: jamais apagar o brilho nos olhos dos estudantes.

Na escola, dos 3 aos 7 anos, as crianças exploram tudo, estão ávidas por aprender a pesquisar, cheias de curiosidade pelo mundo das letras, com frequentes perguntas que realmente mobilizam o pensamento científico. Então, a partir dos 11, 12, 13 anos essa disposição diminui. O corpo, as emoções, os sentidos são tomados pela explosão hormonal. E aquele brilho no olhar começa a se apagar. O pesquisador apaixonado pelo mundo descobre o tédio. Por que?

Na educação infantil, até por volta dos 7 anos, o brincar é a chave do aprender e do conviver com o outro. O tempo é usado de modo mais criativo, menos marcado. O espaço da sala de aula se reinventa a cada atividade. A música e a dança são frequentes. Os desenhos com as mãos, as colagens, as massinhas de modelar, são expressão natural, livres de modelos, de “certo e errado”. A “sujeira” é parte da alegria e da exploração do mundo. Criança feliz é criança saudável e bem desenvolvida. E elas frequentemente estão assim: felizes.

No ensino fundamental I, o tempo passa a ser mais rigidamente marcado. O tempo da aula é instaurado. O brincar se reduz ao recreio e a um ou outro momento de “entre atividades”. Os especialistas são mais frequentes, mas há professores polivalentes que desenvolvem facilmente projetos e pensam o processo de ensino-aprendizagem de forma mais integrada. Por exemplo, temas de Ciências, História e Geografia que motivam e reforçam a alfabetização e o uso social da matemática. Porém, surgem as provas. A avaliação vira aquela bruxa má que acaba com o livre e contínuo processo de aprender a aprender. A despeito da megeras, no entanto, as crianças são incríveis. Elas querem aprender. Elas estão disponíveis de corpo e de imaginação, apesar da forma escolar começar as espremer o corpo e a imaginação. Surge o certo e o errado. Muitas vezes – na maior parte das vezes – sem que as crianças saibam qual é o critério que diferencia o certo do errado. Elas não foram chamadas a pensar sobre isso.

No Ensino fundamental II: acabou a brincadeira. Começa a “escola de verdade”: nove disciplinas se revezam em tempos curtos, de 50, 45 minutos. As provas tornam-se mensais. Os projetos, episódicos, costumam cair de cima pra baixo, quase como uma confirmação lenta e demorada que de agora em diante, “tem que ser assim”, como o professor mandou. Os olhos começam a se apagar.

Ensino Médio? Provas semanais. Palavra chave: Vestibular.

Mas tem que ser assim? Não, mil vezes não. Em nenhuma faixa do ensino.

O lema da escola deve ser descobrir e expressar o sentido do aprender: a cada aprendizagem, o descobrir mais uma forma de humanizar-se, de tornar-se humano, de explorar mais um campo da cultura, das artes, dos esportes e das ciências que nos definem como sociedade, como humanidade.

As tecnologias, hoje, permitem trazer fontes de pesquisa e experimentação de todas as partes do mundo pra sala de aula. Mais que nunca, o professor deve ajudar a mediar a  transformação de informações em conhecimento. Como então ajudar cada aluno a construir significativamente seus conhecimentos?  Esse será o tema do próximo post.